Exposições Atuais

Mata adentro, Montanhas ao longe - 30/03 a 06/05
Júlio Minervino

MATA ADENTRO, MONTANHAS AO LONGE
por Feres Lourenço Khoury

 

No começar Deus criando

O fogoágua e a terra (...)

 

E Deus disse

Que as águas esfervilhem 

Seres fervilhantes alma-da-vida  

E aves voem sobre a terra

face à face do céufogoágua (...).

 

Bere`shith – A cena de origem

Haroldo de Campos

 

 

 

 

Importante não é ver o que ninguém nunca viu, mas sim, pensar o que ninguém nunca pensou sobre algo que todo mundo vê.

 

Arthur Schopenhauer

 

 

Perto e longe ou dentro e fora a paisagem desponta nos quadros como eventos das cenas da origem. Aqui afloram pinturas onde se projetam tessituras da memória e da alma.

Antes mesmo de ser o repouso dos sentidos, a paisagem é a obra do espírito, segundo Simon Schama. Desse modo o trajeto mental e a apropriação cultural do conceito de paisagem dispõem nos trabalhos um lugar onde se fala dos olhares e valores de um mundo interior, aquilo que Fernando Pessoa chamaria a paisagem da alma.

 Rochas são montanhas ou montanhas são apenas pedras ampliadas? O mato, o matagal, talvez um bosque ou pedaço de floresta, são também portas de entrada de uma trajetória equivocada para a nossa imaginação?

Júlio nos encerra em armadilhas, pois, ao mesmo tempo em que nos oferece o romântico luar, a tranquilidade da pequena garça, o luzir do céu, lança-nos em dilemas da representação, onde efeitos do mato, da pedra, da montanha, subitamente subvertem a noção verossímil da paisagem idealizada.

De fato, se percorrermos os dois conjuntos: as montanhas e o mato, estaremos expostos num labirinto de “janelas” cujas composições estressam o espaço: haverá contrastes a todo tempo... Não haverá calma, nem mesmo um Locus Amoenus. Haverá uma provocação?

Talvez sim...

As pinturas expressam forças pictóricas, cujo embate busca conquistar uma natureza poética, pois como as vemos, são postas na diferença.

Tudo isso é pintura, é pulsação de gestos, é movimento cromático, é expressão da  vontade exposta em narrações visuais, que exige a deambulação do olhar.

(Feres Lourenço Khoury)

 

 

MATA ADENTRO, MONTANHAS AO LONGE
por Julio Minervino

 

Na exposição “Mata adentro, Montanhas ao longe” eu apresento duas séries de pinturas de paisagem realizadas com tinta acrílica sobre tela. Essas duas séries foram construídas simultaneamente a partir de resíduos de memórias de paisagens observadas em tempos passados. São pinturas de exercícios da imaginação nas quais eu trato de duas questões do olhar sobre a paisagem: a imersão e o afastamento.

Na série Mato adentro eu faço uma imersão pelos matagais procurando expressar o ritmo entrecruzado das folhagens e galhadas, na sua manifestação formal;  e seus matizes e nuances sob a incidência da luz, na sua manifestação cromática.

Na série Montanhas ao longe, procuro enquadrar os picos e tratá-los como objetos monolíticos moldando-os com massas de cores mescladas, criando a sugestão do magma em estado de fusão quando dos primórdios da formação e elevação dos relevos geográficos.

Eu resolvi apresentar esses dois conjuntos em uma só exposição pelo antagonismo que se estabelece entre eles nas duas maneiras de abordar a paisagem, ou seja, a aproximação e o afastamento do objeto pintado, o ritmo desordenado e caótico da vegetação em contraposição a austeridade estática da matéria mineral das montanhas, o formal e o informal, o que se apresenta definido e o indefinido, o real e o espiritual, etc.

Na minha percepção, adentrar a mata me põe em contato com a realidade objetiva da existência, ao contrário da contemplação das montanhas que me induz a aceder ao plano da espiritualidade, às névoas do imponderável, ao azul do infinito celestial.

Em suma, pintar a mata é estar em contato com o real e pintar montanhas é estar em contato com o espiritual.

( Julio Minervino)

 

Sobre Júlio Minervino

Júlio Minervino, artista visual e experiente professor atuou nas faculdades Mackenzie-Design e Santa Marcelina. Nos últimos anos vem participando de Workshops, Residências artísticas e exposições  na Dinamarca, Japão e Polônia. Em 2016, publicou  o livro Num véu de água se inscreve a paisagem.