Exposições Atuais

DIVERTIMENTOS - 23/05 A 30/06
JULIO MINERVINO

textos WALDEMAR ZAIDLER

 Sobre mourões, forquilhas e hidrantes

Da série iniciada em fevereiro de 2017 foram selecionadas 24 pinturas para compor a exposição Divertimentos. Nelas, de modo aparentemente aleatório, Julio Minervino mistura imagens que há tempos o acompanham com figuras colhidas em suas atuais deambulações – graffiti, personagens de HQ, signos gráficos –, tudo de acordo com sua particular visão crítica, tudo arranjado em composições rigorosas e primorosamente executadas.

Em música, o termo divertimento vincula-se à intervalo; pode designar composições musicais ligeiras ou coreografias apresentadas nos entreatos das óperas, ou peças camerísticas que, encadeando sequências de danças, entretinham cortesãos.

Assim como na música, Divertimentos propõe ao visitante um intervalo recheado de estímulos visuais potentes o suficiente para conectar um antes a um depois, modificando a ambos. Esse conjunto de pinturas parece solicitar o congelamento do relógio e, em outra instância do tempo, oferecer um recreio no qual a diversão é fantasiar sobre possíveis significados de tão enigmática e densa miscelânea de signos.

Julio Minervino costuma trabalhar em séries, fazendo de cada uma delas um laboratório de linguagem: persistente, entrega-se durante períodos – no mínimo muitos meses – à investigação temática em um determinado gênero de pintura; experimenta variações estilísticas, procedimentos técnicos, suportes, produzindo freneticamente em uma mesma direção, até que seja assaltado por outro movimento. Nas séries imediatamente precedentes[1] a Divertimentos – também apresentadas no Ateliê Galeria Priscila Mainieri – identifica-se com clareza esse modo de operar.

Em cada série Minervino introduz uma nova incógnita na problematização da pintura, fio condutor do conjunto. Na atual é o tamanho das telas: o grande formato (em torno de 230x170 cm) requisitou referências de naturezas diferentes das tomadas anteriormente – campesinas, rurais, rústicas –, e a cidade foi agora escolhida como fonte. Porém, independentemente do tamanho, da temática ou do gênero, são facilmente identificáveis alguns signos recorrentes; Minervino os insere em atmosferas diáfanas – competentíssimas velaturas – nas quais, adivinha-se,  flutuam suas memórias.

Dois desses signos são muito evidentes. Um deles figura estruturas de sustentação que se interpõem entre objetos funcionais e o solo: pés de mesa ou de banco, suportes de caixas d’água ou de tulhas, pedestais de vasos; Julio sempre os desenha em traços decididos e sintéticos, beirando o esquemático. O outro signo poder-se-ia descrever genericamente como variações de um cilindro de boa grossura fincado no chão, de altura variável e com ramificações também cilíndricas na parte superior: mourões de cerca de arame farpado, cactos, troncos de árvores com tocos de galhos amputados, forquilhas. Prato cheio para abordagens psicanalíticas ou iconográficas, mas aqui interessa sugerir que se observe, em um trabalho essencialmente figurativo, a participação dessas imagens na sintaxe das pinturas, na provocação de interesse visual, na composição dos discursos, na poética de Minervino.

Esses recorrentes signos bifuracados, presume-se, agenciam a transferência de uma certa ambiência criativa para a tela: no momento em que os insere na composição – e parece ser difícil para ele resistir a isso –, Minervino retempera a fabulação que acompanha e orienta o ato de pintar, ato que retroage simultaneamente sobre a fábula, redefinido-a. Esse dialogismo, quando percebido, induz no vedor a intuição de um envoltório mnemônico que confere às pinturas caráter onírico: daí a ligação entre esses signos e memória, e daí também a inequívoca lembrança que essas variegadas e copiosas composições trazem do célebre “encontro casual entre uma máquina de costura e um guarda-chuva numa mesa de dissecção”.

Nessa copiosidade mesclam-se também planos contrastantes e fragmentados – panejamentos, áreas de cor, paisagens, interiores, jardins – constituindo os contextos onde amalgamam-se figuras, objetos, personagens ora em contornos fatasmagóricos, ora graficamente, ora pictoricamente, ou ainda à maneira que Minervino chama “a la prima”; e a tudo e entre tudo é garantido contraste, sempre sob rigoroso controle técnico.

Pois é a potência dessa fartura contrastante a responsável pelo engendramento dos entes que povoam o pátio do recreio em Divertimentos. Entes que se articulam parataxicamente no espaço da tela seguindo a orientação do próprio fazer, ao sabor do ato da pintura e de uma narrativa cuja concomitante invenção exige do artista a incessante consulta de seu vastíssimo repertório imagético, amealhado desde sempre em diligências pelas ruas, registrado fotograficamente e em cadernos de desenho.

E assim vão surgindo as pinturas: Minervino vai contando a si próprio a história cujo enredo tece a partir das ocorrências do dia-a-dia – vale tudo, desde conspirações palacianas até intrigas de botequim–, que evocam reminiscências, figuras que, uma vez pintadas, alteram o rumo inicial da história. Mas ainda que, nesses casos, ele próprio declare não haver projeto predefinido para cada pintura, não seria descabida a hipótese de que, em razão do procedimento mental cíclico e da produção seriada, cada obra fosse o devir das anteriores.

Mais uma vez, as pistas que suscitam essa hipótese estão nas figuras bifurcadas, em Divertimentos vistas em profusão: a forquilha se transmuta em papagaio bicéfalo, a caneca se assemelha a um cacto ao ganhar em lugar da asa uma orelha, mais um nariz a ela oposto simetricamente; a dentadura que se abre em v, o olho que salta da cabeça, o olho-seio que escorre de uma orelha, o coração com suas artérias ramificadas, as miras que brotam em canos de armas de fogo.

O idílico mourão de cerca com seu galho cotó, voo no passado campestre, projeta-se violentamente do fundo para o primeiro plano da cena travestido de sarcástico hidrante cujo bocal foi remendado a silver tape, tropeço no presente urbano: ora, isso evidentemente só pode significar… bem, inventar esse significado é o jogo proposto para esse recreio.

Divertido, não?

 

Waldemar Zaidler

Abril 2018



[1] Mata adentro, montanhas ao longe (acrílica sobre tela, 2017); Num véu de água se inscreve a paisagem (naquim sobre papel, 2016); Ovos (entalhes em madeira, 2015).

 

 


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